Tinha um segredo no rosto, uma sombra convertida numa máscara constante. Não o sabiam, mas a sua memória parecia apresentar-se ao mundo como o espectro de um arlequim, uma sombra colorida em todos os tons de azul, mas secretamente negra como a mais obscura noite.
Fingia um sorriso em cada traço, um pensamento dentro de cada emoção. E sonhava, secretamente, ainda que apenas com a libertação do deserto, o eterno adeus de quem não sente sequer a própria vida.
Quem poderia dizer, afinal, que ela era imortal e que, por detrás da máscara da sua juventude, se escondia o cansaço de uma alma demasiado velha para se perder no cárcere de um corpo com uma ainda longa vida pela frente? Quem poderia ver as sombras por detrás da sua luz?
E então sentiu-o, como um toque ao de leve, roçando o seu corpo através dos mantos do disfarce. E viu o mesmo sorriso, tão luminoso e aberto, mas tão falso na verdade. Viu as cores da sua sombra, reflexos de uma máscara tão estranha como a sua.
Num suave silêncio, estendeu-lhe a mão, num gesto aparentemente cordial. E ao encontrar o calor da sua pele, compreendeu o verdadeiro significado daquele leve movimento, apenas mais um gesto, mas desprovido de ilusões e subterfúgios.
- Vens comigo? – perguntou, num sussurro quase sem voz.
Nesse momento, todas as máscaras caíram.
Era apenas um gesto, um vago sorriso traçado nos lábios de uma palavra marcada. E, ainda assim, ela sabia que, atrás daquele silêncio sereno, tão tranquilo e racional, havia a soturna sombra de quem vive um ambiente que não tem pés nem cabeça, apenas caos emocional.
Tão calmo o seu rosto, e, contudo, as mãos crispadas diante do torso denunciavam o seu nervosismo. Pela primeira vez na vida, dependia dela para prosseguir, mas nem assim se dispunha a admitir as suas fraquezas. Eram parte de si aqueles medos, como um destino de que não podia abdicar, nem no limite da ruína.
Silenciosamente, ela sorriu, avançando lentamente na sua direcção. Sentia o tremor das suas emoções, o turbilhão amordaçado sob aquela máscara de serenidade. Estendeu os braços para ele, como num sonho inefável, e conteve-o dentro de si, como um silêncio maternal.
- Não tenhas medo. – sussurrou – Eu estou aqui.
E, incrivelmente, o silêncio deixou de fazer sentido, e, na ilógica libertação dos corações moribundos, ele deixou cair o véu que o estrangulava e, apagando o sorriso do seu rosto atormentado, soltou no abraço dela as suas lágrimas.
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