Chorei pelo passado destruído, antes de saber sequer o que era o futuro. Na aurora da vida, mergulhei num desespero sem sentido e sem saída, incapaz de encontrar a mais breve e ténue luz que me salvasse da escuridão. Perdi-me no vazio de não ver nada em meu redor, para além dos estilhaços da minha vida quebrada, da minha alma destroçada, da minha inocência morta.
Chorei lágrimas gélidas e dolorosas de angústia e de amargura, em nome de toda a magia que nunca passará de um sonho e de todo o amor que jamais será mais que uma esperança vencida. Lamentei-me, em convulsões de sofrimento extremo, pela minha existência de sofrimento interminável. Vi-me incapaz de amar, de confiar, de acreditar. Olhei para o espelho e a imagem que ele me devolveu foi a de um destroço, de uma ruína mais antiga que a própria vida, de um fragmento de nada demasiado cansado para continuar a viver. Vi-me como um espectro derrotado, uma prisioneira da vida, e desejei morrer mil vezes para deixar de sentir os espectros da angústia que me percorre a cada momento.
Chorei pelos que me venceram, pelos que me quebraram e pelos que me abandonaram. Humilhei-me, pedindo-lhes que voltassem, que restaurassem os laços quebrados, que reconstruíssem o passado perdido. Mas, diante da minha alma prostrada, despojo abjecto e suplicante, escarneceram da minha fraqueza e partiram, triunfantes, sem sombras de remorso.
Chorei... Mas hoje vejo que as minhas lágrimas foram em vão e, renascida do abismo, ganhei a coragem necessária para viver, para persistir no meu caminho, um dia de cada vez, com a força constante da promessa que me guia e me sustém: a voz as justiça divina.
Chorei, sim... Mas não vou voltar a chorar.
Memórias distantes confundem-se com breves momentos do presente. Promessas eternas há muito quebradas misturam-se com votos sempre renovados de força e de luz. A magia brilhante da inocência perdida funde-se com as trevas do interminável martírio de viver. A bruma impenetrável do futuro enlaça o fumo distante do passado.
O esquecimento não é permitido. A memória sombria e torturante de cada momento de dor, a imagem de cada gesto magoado, a voz distante que murmura as palavras que nunca deviam ter sido pronunciadas, assombram cada momento de dolorosa existência, rasgam o espírito com as suas garras repulsivas, consomem, ferem, matam.
Permanece sempre a imagem do anjo puro, brilhante, inocente, que acredita que tudo é belo, tudo é perfeito e tudo é alcançável. O anjo que acredita que ninguém em seu redor o poderá magoar. Esse anjo, branco e cintilante como a inocência do passado, jaz, derrubado, morto, afogado no seu próprio sangue.
Memórias de dor infinita e de promessas sem sentido.... Reflexos de uma infinita riqueza, transformados na total miséria. A luz convertida em noite. O amor convertido em ódio... O perdão transposto em vingança. A vida, cedendo lugar à morte...
E o esquecimento não é permitido...
. Ele
. Convite: Apresentação do ...
. E Morreram Felizes para S...