Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Um Sonho de Passagem

 Não sei exactamente de onde vim, dispersa por entre as minhas divagações soturnas, errante por estradas que nem eu sei se conheço. Nem sequer sei quem sou, peregrina de caminhos de um vago reconhecimento, mas não mais que vago, difuso, como se distante da minha própria consciência, ainda que tão próximo que quase o consigo tocar.

Presumo que tenha nascido naquela estranha noite de tempestade, quando, subitamente, ganhei consciência do meu corpo molhado sob a chuva torrencial, imóvel no limite do abismo, enquanto fitava a lua que me banhava com a sua luz. Pergunto-me, por vezes, se aquele corpo terá recebido uma alma antes da minha, um espírito que se afastou para me deixar entrar, para impedir que o corpo se precipitasse no absoluto nada do desespero e da indignidade de morrer. Ainda assim, desta existência que se tornou minha propriedade, não guardo qualquer memória anterior àquele dia e, por isso, sei que a verdadeira dimensão das respostas nunca chegará até mim.

Vivi os últimos meses numa espécie de peregrinação anterior, rebuscando todos os recessos do meu mundo em busca de uma resposta que me explicasse quem sou, mas foi em vão. No olhar daqueles que me foram encontrar diante do abismo, não vi senão a preocupação de quem me julgava prisioneira da loucura, demasiado insana para tentar sequer compreender. Nunca encontrei, pois, qualquer explicação para a vida que me dominara e, mergulhada no meu silêncio melancólico, aceitei com resignação a travessia para aquele novo mundo.

Foi, contudo, num desses dias de estranha dormência, um dia igual a todos os outros, que, enquanto remexia nas coisas dispersas pelo meu quarto, que nunca olhara com a devida atenção, descobri um pequeno caderno de capa negra, completamente preenchido por uma letra pequenina e perfeita que reconheci como a caligrafia que, entre muitas outras coisas, se tornara minha.

Quanta tristeza havia naquelas palavras… Quanta solidão! Parecia que cada letra era uma lágrima de tinta, a sangue tingida naquele lençol de papel branco, rasgando o silêncio com os seus gritos amordaçados. Como podia ela não ceder ao desespero, quando o seu coração sangrava sem que ninguém visse? Que espécie de existência herdara eu, sem querer?

Desde esse dia, fiz todos os possíveis e impossíveis para tentar compreender a alma que me deixara o seu lugar. Remexi todas as coisas que ela me deixara como legado, em busca de um qualquer sinal que me aproximasse da sua essência, da existência que a preenchera e a consumira. Ainda assim, não encontrei nenhuma resposta, apenas a expressão dos seus negros sentimentos, o seu silencioso grito de desespero. E, quando acreditava que jamais viria a saber que espécie de criatura era e porque tomara o lugar da minha antecessora, a resposta chegou até mim, numa noite também de tempestade, enquanto as asas do sonho embalavam a dormência dos meus sentidos.

“Olá.”, dizia uma voz suave nos meus sonhos, com a leveza melancólica de uma sedução quase irresistível. Parecia ecoar dentro do meu pensamento, quase como se fosse uma parte de mim que eu esquecera, mas que decidira regressar.

“Quem és tu?”, perguntei, surpresa, apesar de suspeitar vagamente de que conhecia a resposta. Ainda assim, depois de todos os esforços que fizera para encontrar as respostas, era difícil conceber o facto de serem elas a vir ao meu encontro.

“Acho que sabes.”, respondeu a voz, e havia um levíssimo vestígio de um sorriso no eco da sua voz. “Tendo em conta que tens passado tanto tempo à minha procura…”

“Conta-me a tua história.”, pedi, hesitante. “Diz-me quem és.”

“Eu já não sou ninguém.”, respondeu ela. “A minha história agora é tua. Mas, se precisas de saber, vou contar-te.”

E nenhum segredo ficou por revelar. Serenamente, como se a distância tivesse atenuado as suas emoções até um ponto suportável, a antiga habitante do meu corpo contou-me o que fora a sua vida e o que fizera com que eu tomasse o seu lugar. Na verdade, naquela noite, cansada de uma existência onde não era senão uma sombra, humilhada pelo mundo que lhe exigia sempre mais, que a agredia constantemente com pensamentos e palavras e que a tentava afastar dos seus sonhos para ditar o rumo dos seus passos, aproximara-se do abismo para pôr um fim à sua vida. Contudo, o medo imobilizara-lhe os movimentos, e, demasiado confusa para continuar, limitara-se a erguer à lua um olhar suplicante, pedindo silenciosamente que a libertasse do peso da sua existência.

“ E a lua respondeu.”, prosseguiu a voz. “Aparentemente, e ainda que não te lembres, tu eras uma estrela cansada da monotonia dos céus. Gostavas de ver a humanidade passar e imaginavas-te a viver entre eles, a experimentar as suas emoções e pensamentos, a novidade de cada dia que passava. Por isso, a lua respondeu ao teu desejo e ao meu, trocando os nossos lugares.”

Silenciosamente, assenti. A revelação era demasiado estranha para assimilar com facilidade, mas, ainda assim, era como se eu sempre o tivesse sabido, algures num recôndito espaço da minha alma. Não poderia, pois, ser falso, o que aquela voz me dizia.

“Nunca pensei encontrar-me contigo.”, prosseguiu ela. “Acreditava que encontrarias o caminho da vida sem que precisasses de conhecer os fantasmas do meu passado. Sabia que eras mais forte e que conseguirias superar os obstáculos do meu caminho, mas… A forma como tentaste compreender-me, como choraste face ao meu desespero, como sentiste as minhas emoções e os meus medos, deu-me a certeza de que devias saber, e, por isso, estou aqui.”

Mais uma vez, limitei-me a um assentimento. Agora que ouvira as palavras da estrela ecoar no meu sonho, sabia que, inconscientemente, a verdade sempre estivera comigo e que aquela vida que, em tempos, ela vivera, era agora absolutamente minha, da mesma forma como o meu lugar no céu passara a pertencer àquela alma atormentada.

“Não vais voltar a encontrar-me.”, disse ela “Agora que sabes quem sou e quem passaste a ser, não precisas da minha companhia. Ainda assim, quando te parecer que os problemas são demasiados para suportar, olha para o céu, e sabe que eu vou estar lá, a olhar por ti e a torcer para que alcances todo o sucesso que me escapou por entre os dedos.”

“Espera!”, respondi, apressada. “Responde-me a uma pergunta: estás em paz?”

Mais uma vez, aquele vestígio de sorriso transpareceu na sua voz, enquanto me respondia. “Sim, estou em paz.”, disse. “Mas devo partir. Boa sorte.”

“Adeus.”, respondi, enquanto a sentia desaparecer, para dar lugar à estranha palidez da luz do dia que entrava por entre os meus olhos fechados. A revelação terminara e eu estava agora completamente desperta.

Por isso persisto, vagueante entre estradas de emoções imprevisíveis e caminhos de experiências inesperadas, sem saber ao certo como explicar as minhas origens e as mudanças que se operaram sobre mim, mas, ainda assim, sem deixar de seguir em frente, iluminada pela etérea presença daquela estrela que, em tempos, fui eu, mas que agora me vigia do alto dos mundos superiores.

 

sinto-me: nocturna
música: Nightwish - Sleeping Sun
publicado por Carla Ribeiro às 20:04
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