Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Ele

Tinha olhos cor de noite e os seus cabelos de fogo ondulavam sob a brisa que lhe acariciava a face. Era pálido como a morte, alvo como a face lunar, e os seus traços rígidos e distantes eram desenhos de sombra na imagem do seu silêncio. Agitavam-se no vento as dobras das suas vestes, negras como as orbes que lhe iluminavam o rosto, fúnebres e lutuosas como o seu negro coração.

Também ele era noite, ainda que ninguém o soubesse. Ele que, perante o mundo, era senhor de mais almas que as que podia contar, o poderoso general das hostes imperiais, não tinha consigo senão a sombra da sua própria solidão. E se, perante os olhos de mundo, ele era de pedra e de gelo, frio e cruel na sua determinação, quando a noite descia sobre si, apenas a angústia partilhava o seu sono atormentado, a tristeza dos seus sonhos estrangulados no passado.

Dele diziam que era imortal, por todas as batalhas impossíveis que havia vencido. Era, contudo, apenas um homem amaldiçoado, aquele que buscava a morte para jamais a encontrar. E, do sussurro das lendas, mil vozes invocavam em uníssono o nome da sua falsa divindade.

Chamavam-lhe Claudius, o silente, o tenebroso. Mas nenhum deles sabia que trevas consumiam o seu coração. 

sinto-me: criativa
música: Epica - The Last Crusade
publicado por Carla Ribeiro às 21:03
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Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Uma Rua Só Minha

 Aqui sou eu a que se esconde na janela do meu quarto. Lá fora, o dia chega ao seu fim, e o céu parece mergulhar na sanguinolenta penumbra de uma noite interminável. Já não se vê o sol, apenas a névoa avermelhada que parece tomar posse de um céu cada vez menos azul. E, para lá do castanho das árvores onde as folhas começam a morrer, a estrada para lá do portão, onde os carros vão passando, de regresso às suas vidas.

São sete horas e vinte minutos, e as gentes regressam a casa. Um velho carro vermelho, depois uma carrinha azul… Um e outro e depois outro, invadindo com o soar dos motores a suave sinfonia dos pássaros e do vento a cantar por entre as árvores.

A minha rua deserta, só minha na minha casa, enquanto vejo o silêncio que paira no anoitecer. Interrompido pelos gritos, pelo esporádico soar de um carro na estrada, ou pelos cães que ladram na distância. Hoje este espaço é só meu. Ninguém me vê e ninguém sabe… que eu vejo todo o universo neste pedaço de terra.

sinto-me: Pensativa
música: Epica - Safeguard to Paradise
publicado por Carla Ribeiro às 16:20
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