Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Um Rosto Apenas

Tinha nos olhos a mensagem do além, a ternura de um anjo que, mesmo para lá da vida, continuasse a velar os gestos do seu amor. Não passava de uma face perdida, petrificada nos cinzentos do retrato, mas, ainda assim, quase continha a imagem da mais absoluta bondade.

A casa estava vazia. Não havia já ninguém para recordar os seus passos e a pacífica alegria da aldeia cedera ante o êxodo do progresso. Ela, contudo, morta para os homens que, em tempos criara, continuava ali, fitando, da parede, os pequenos objectos que, ao longo dos anos, haviam acompanhado o caminho da sua existência.

Às vezes, pensava, com a mente que subsistia nas brumas da sua alma, como gostaria de rever o rosto dos seus filhos, de ouvir os alegres risos das crianças que nunca conhecera, de contar, nas noites de frio, as tantas histórias que só ela sabia. Mas o seu corpo fugira e ela era apenas um quadro, uma fotografia esquecida entre paredes e pó.

Olhou em redor, com a etérea inefabilidade com que os quadros olham, procurando recordações por entre as teias das aranhas que teciam entre os espaços a sua renda. Ali estava a pequena moldura onde, dos confins de uma memória, os seus filhos lhe sorriam. Mais além, os livros da criança esquecida que, em tempos, fora a sua neta, mas que crescera, partindo para longe do sonho e das recordações. Ao fundo, sobre a lareira, a jarra de cristal que as suas mãos trémulas tantas vezes haviam enfeitado com as mais belas flores do jardim.

Onde estava, agora, tudo aquilo que recordava? Que acontecera com o tempo, com a sombra da sua vida? Se fora ela quem morrera, porque estava vazio e deserto o mundo que deixara, que esperara que prosseguisse na sua magnífica floração? Porque partira, pois, tudo aquilo que lhe dera a tranquilidade necessária para virar costas ao seu futuro?

Desejou chorar, procurar no alívio das lágrimas o consolo para a sua alma ressequida, aprisionada nos fantasmas de uma casa morta. O seu rosto, contudo, não era mais que uma fotografia, um espectro renegado para o crepúsculo dos séculos, incapaz de se evadir até no breve refúgio de uma lágrima solitária. Não era ninguém, afinal, ela que fora tudo e todas as memórias que construíra naquele lugar, todos os pequenos símbolos que dispersara para perpetuar a sua memória. Não era ninguém…

Tinha nos olhos o cansaço dos vencidos, a tristeza de quem vivera em nome de uma causa maior, mas que morrera sem deixar sequer um sopro de saudade. Ainda assim, amava cada uma das memórias que semeara, como frutos de um momento, nascidos do ventre da sua alma para a acompanhar na solidão da sua eternidade.

E a noite caiu, transformando em sombras os reflexos do seu mundo, deixando que o vento tempestuoso do mundo exterior cantasse em seu nome, como no suspiro resignado de quem adormece nos braços do absoluto.

 

sinto-me: Nostálgica
música: Sagisu Shiro - Never Meant to Belong
publicado por Carla Ribeiro às 20:16
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3 comentários:
De Quietação a 26 de Janeiro de 2009 às 22:37
Olá.
Gostei muito de ler o texto. Deixou-me um pouco até a pensar, como as coisas são deixadas e esquecidas. As descrições levaram-me até à casa e fui imaginando o desenrolar conforme ia lendo
De poetaporkedeusker a 1 de Fevereiro de 2009 às 00:17
Gostei! Gostei muito, Silent Raven. :)
De poetaporkedeusker a 9 de Fevereiro de 2009 às 14:30
Isto para mim é muito! Venho pedir-te que passes no Poetaporkedeusker. Não quero "spamar" este blog... e acho que já o fiz com alguns...
:)

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